sábado, 6 de junho de 2015

Deserto

Eu sempre quis ser uma mistura não muito convencional de Jim Morrison e João Batista, os dois semelhantemente tinham uma predileção mística pelo deserto. Deserto é local onde o exterior não se faz muito presente, é o lugar em que é preciso olhar pra dentro, local em que digladiamos com demônios, Jesus que o diga.

Nunca curti muito viajar, pegar a estrada cantando Infinita Highway, minhas viagens prediletas sempre foram aquelas que se fazem dentro da gente mesmo, nos caminhos infindáveis do coração. O que pra muitos é tido como uma espécie de fuga, lugar de conforto, segurança; digo essas pessoas nunca estiveram tão enganadas, os caminhos das viagens internas são cheias de armadilhas, lugares secretos escondidos por escolha da memória, lugares de dores e traumas, local onde os maus caminhos estão a um pensamento de distância. “É o que sai do interior do homem que o contamina e não o que vem do exterior” como já disse Jesus.

Pensar em deserto trás a minha mente imediatamente, local de solidão, de solitude, sou um cara que gosta de ficar sozinho, que sempre depois de um momento de reunião familiar ou de amigos, precisa ficar sozinho, recarregar as baterias da razão, da fé. Se reconectar com os infinitos caminhos interiores.

No fim penso em Nietzsche, não sei se a solidão fez bem para ele, pelo que parece ele também era amigo da solitude, a qual escreveu várias vezes “na solidão, o solitário devora a si mesmo; Na multidão devoram-no inúmeros. Então escolhe.” Penso que ele tenha um pouco de razão, mas o que é a razão afinal de contas, quantos “loucos sonhadores” do mundo interior não foram exatamente os que mudaram o mundo? Os que criaram asas inimagináveis que colocaram a humanidade a voar como pássaros pelo ar, “O que é aquilo no ar é um pássaro, um avião?”

Vou aqui me despedindo desse pequeno momento de solidão no qual escrevo, logo mais verei pessoas, namorada, familiares, talvez amigos e, me alegrarei... Mas lá ao longe no longo horizonte o deserto me acenará...e eu acenarei de volta.


Thiago Mendes
Belo Horizonte, manhã 06/2015